descascandopepino

Wednesday, November 02, 2005

Poema de Filipe Canysso: Pedras

Pedras

Por um caminho de pedras/
Quero eu calçar as botas/
Sob a calma chuva ácida/
É que o velho vai se esconder/

Acender a luz da noite/
Pra fazer dançar o surdo/
Na escuridão da fria chama/
É que as belas cinzas vão brotar/

Pétalas de um touro gordo/
Fazem frente à Bienal/
É no meio do teu relógio/
Que falta meu ponto final/

Num inferno de fantasias/
Paira o elevador barato/
É no patamar mais baixo/
Que se finge calçar as pedras.

Filipe Canysso


Comentário do Ziggy: Traduzir a atualidade em palavras é trabalho de poeta, como antena do povo. É preciso ser poeta, haver poesia na vida, para que se atinja a quarta dimensão dos mundos. Lembro de Clarice Lispector dizendo em seu livro (Água Viva) de título intenso e perene, algo parecido com o que está posto no poema de Filipe: "O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena. Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais". Filipe fotografa o mundo pelas retinas e traduz-nos sua visão pela quarta dimensão materializada na palavra. A poesia de Filipe é de nosso tempo, é o nosso tempo, é o instante-já, é um instante-que-já-era mas que permanece em poesia para todos nós. A imagem da poesia de Fillipe é central como em nossos tempos a imagética está em lugar de destaque. Abramos os olhos para o que poetas como Filipe tem a dizer, eles cantam um novo mundo, o devir, o porvir, o sonho mais que real. Aprendamos com a poesia.

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